Parte dessa distorção está ligada ao desenho do sistema de transferências, baseado em regras criadas na década de 1960, quando o contexto urbana, econômica e demográfica do Brasil era completamente diferente.
Desde então, o país passou por um intenso processo de urbanização, com crescimento acelerado de cidades médias e grandes. Os dados indicam que, entre 2000 e 2024, esses municípios cresceram acima da média nacional, mas passaram a receber menos receita por habitante.
Enquanto isso, uma parcela relevante dos recursos — especialmente das transferências — continua concentrada em localidades com pouca população ou até em declínio demográfico. Na prática, o dinheiro passou a seguir na direção oposta à população.
Os indicadores mostram que, entre 2000 e 2023, os municípios médios e grandes apresentaram taxas de crescimento populacional superiores à média nacional. Em contraste, os municípios com menos de 20 mil habitantes cresceram abaixo da média do país, sendo que aqueles com até cinco mil habitantes registraram, em média, decréscimo populacional ao longo dos últimos 25 anos.
Ao mesmo tempo, os dados revelam um descompasso entre população e recursos. Municípios mais populosos, apesar de continuarem crescendo, passaram a receber menos receita por habitante. Essa combinação entre dinâmica populacional e alocação de recursos fez com que, na prática, o dinheiro passasse a seguir na direção oposta à população nas cidades brasileiras.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Em 2000, os 20% de municípios com menor receita por habitante concentravam cerca de 38 milhões de pessoas. Em 2024, esse contingente chegou a 82 milhões. No sentido oposto, os 20% de municípios com maior receita per capita viram sua população cair de 43,9 milhões para 13,9 milhões no mesmo período. Como ambos os grupos reúnem a mesma quantidade de municípios, o resultado é claro: cada vez mais brasileiros vivem hoje em municípios estruturalmente subfinanciados.